Em um pronunciamento incisivo realizado neste sábado (18), em Barcelona, Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou veementemente os conflitos armados em andamento e defendeu o fortalecimento do multilateralismo, salientando que as populações mais vulneráveis são as maiores vítimas da irresponsabilidade bélica. A declaração ocorreu durante a quarta reunião de alto nível do Fórum de Defesa da Democracia.
O chefe de Estado brasileiro, que cumpre uma agenda de compromissos em três nações europeias, enfatizou que os impactos das hostilidades militares se refletem diretamente na vida das camadas sociais mais empobrecidas.
"O Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil, o milho no México, aumenta a gasolina em outro país. É o pobre que vai pagar pela irresponsabilidade de guerras que ninguém quer?", questionou.
Lula ressaltou que o planeta enfrenta desafios mais urgentes do que os conflitos, mencionando a existência de mais de 760 milhões de indivíduos em situação de fome, a prevalência de milhões de analfabetos e as mortes de milhões de pessoas que não tiveram acesso a vacinas contra a covid-19.
Diante de um cenário global com o maior número de confrontos armados desde a Segunda Guerra Mundial, o presidente clamou por uma atuação mais assertiva e coordenada da Organização das Nações Unidas (ONU).
"Precisamos exigir que o secretário-geral da ONU convoque reuniões extraordinárias, mesmo sem pedir aos cinco membros do Conselho de Segurança", afirmou.
O presidente manifestou críticas às principais guerras em curso, citando a invasão da Ucrânia pela Rússia, a devastação da Faixa de Gaza por Israel e o envolvimento dos Estados Unidos em um conflito contra o Irã no Oriente Médio. Ele afirmou que nenhuma liderança mundial, independentemente do poder de sua nação, tem o direito de impor suas regras a outros países. Ele também cobrou uma mudança de comportamento dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
"Nenhum presidente de nenhum país do mundo, por maior que seja, tem o direito de ficar impondo regras a outros países. Nenhum. E os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU devem se reunir para mudar seu comportamento. Nós não podemos levantar todo dia de manhã, e dormir todo dia a noite, com tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra. Ou seja, e todos eles tomam decisão sem consultar a ONU, da qual são eles membros e fazem parte do conselho", prosseguiu Lula.
O líder brasileiro expressou pesar pelo silêncio de diversas nações e enfatizou que a vitalidade democrática nas Nações Unidas está intrinsecamente ligada ao engajamento ativo de seus membros. Segundo ele, "Fortalecer o multilateralismo depende de nós".
Em outro ponto de seu discurso, Lula direcionou críticas ao impacto das plataformas digitais na desestabilização política de diferentes países e propôs que a própria ONU assuma a liderança nas discussões sobre a criação de normas globais e compartilhadas entre as nações para esse setor.
"A verdade, nua e crua, é que a mentira ganhou da verdade. Esse é o dado concreto. Para mentir, você não tem que explicar. Para se justificar, você tem que se explicar", afirmou.
O presidente cobrou uma atuação efetiva da ONU também na temática da regulamentação das plataformas.
"Ela precisa funcionar para garantir, por exemplo, que as plataformas sejam reguladas no mundo inteiro, para todo mundo. Não pode o presidente da República interferir na eleição de um país interferir na eleição de outro, pedir voto para outro. Cadê a soberania eleitoral? Cadê a soberania territorial? Esse é um tema que nós precisamos discutir e nos fazer ouvir. E o cenário que temos que brigar é dentro das Nações Unidas", completou Lula.
O Fórum Democracia Sempre, uma iniciativa lançada em 2024, reúne os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. O encontro em Barcelona, organizado pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, contou ainda com a participação dos presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Cyril Ramaphosa (África do Sul), Claudia Sheinbaum (México) e do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.
Após o encerramento dos compromissos na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). Lá, ele participará da Hannover Messe, reconhecida como a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição presta homenagem ao Brasil. Adicionalmente, o líder brasileiro tem agendada uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.
A viagem presidencial será concluída no dia 21 com uma breve visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, Lula terá encontros oficiais com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.