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Projeto Costão Rochoso amplia monitoramento e manejo sustentável no litoral do RJ

Monitoramento em Arraial do Cabo subsidia manejo, preservação e educação ambiental em reservas marinhas.

21/04/2026 às 15:14
Por: Redação

Em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, um dos locais de mergulho mais conservados do litoral brasileiro, equipes compostas por mergulhadores e pesquisadores dedicam-se ao levantamento detalhado das espécies marinhas presentes na região. Nesta atividade, que eles denominam como uma espécie de censo submarino, são registradas tanto a quantidade quanto a identificação das espécies de peixes encontrados em áreas delimitadas do fundo do mar.

 

O trabalho é realizado em profundidades de 7 a 8 metros, com o uso de instrumentos para demarcar extensões de até 20 metros, onde são feitas as anotações sobre as espécies presentes. Durante esses mergulhos, os pesquisadores eventualmente presenciam a aproximação de tartarugas marinhas, compondo o cenário de diversidade local.

 

Além dos instrumentos, é utilizada uma cartela específica para observação das diferentes tonalidades dos corais. Essa análise da coloração serve como indicativo do estado de saúde desses organismos, importantes para o equilíbrio do ecossistema marinho.

 

O acompanhamento das espécies marinhas por meio desse censo não se restringe apenas a Arraial do Cabo. A atividade é realizada também em áreas vizinhas dos litorais de Cabo Frio e Búzios, em intervalos semestrais. Na região mais ao sul do estado, como em Angra dos Reis, localizada na Costa Verde, o monitoramento é anual.

 

Essas ações integram o Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental que conduz os trabalhos em colaboração com a Petrobras.

 

Ecossistema entre o oceano e a terra

 

O termo costão rochoso identifica o ambiente natural que ocorre na interface entre o mar e o continente, caracterizado por grandes blocos de pedra e paredões, dos quais boa parte se encontra submersa. Em determinados trechos do litoral, essas formações rochosas são visíveis acima da linha da praia, recobertas por vegetação, enquanto em outros locais dão origem a estruturas de grande porte como a Pedra do Arpoador e o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

 

Por realizarem a conexão direta entre ambientes marinhos e terrestres, esses costões desempenham papel fundamental como abrigo e fonte de alimento para inúmeras espécies aquáticas, aves e organismos que vivem nas faixas denominadas entremarés — regiões alternadamente expostas e submersas conforme o ciclo das marés. Entre os seres típicos dessas zonas estão cracas, mexilhões, diversas espécies de algas e caranguejos.

 

Os costões rochosos se distribuem predominantemente ao longo do litoral que vai do norte do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo, com fragmentos espalhados também em áreas do Nordeste brasileiro.

 

O Projeto Costão Rochoso, iniciado em 2017 por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), começou suas atividades na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, conhecida pela alta biodiversidade. De acordo com a bióloga marinha Juliana Fonseca, cofundadora do projeto, essa riqueza se deve à condição geográfica peculiar do local, onde ocorre a transição entre águas frias provenientes do sul do Atlântico e águas quentes vindas do Nordeste.

 

“A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade”, descreve ela.


 

Nessa região do litoral fluminense, há registros de espécies também encontradas no Caribe. O biólogo e mergulhador do projeto, Marcos de Lucena, destaca que o mar de Arraial do Cabo apresenta diversidade biológica mais ampla do que o litoral nordestino brasileiro.

 

“Tem uma riqueza muito maior que Fernando Noronha”, diz, referindo-se ao arquipélago de Pernambuco.


 

Habitat para espécies vulneráveis

 

Além de abrigar grande variedade de espécies, os costões rochosos funcionam como verdadeiros berçários naturais, concentrando grande quantidade de peixes jovens nas proximidades das rochas.

 

O censo submarino realizado pelo projeto na área conhecida como Pedra Vermelha, por exemplo, é feito em uma zona restrita, onde o acesso é autorizado exclusivamente para fins de pesquisa científica, mediante licença específica concedida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

 

No âmbito desse monitoramento, além da contagem de peixes, são identificados outros organismos como corais, lulas e polvos. O coordenador-geral do projeto, o biólogo marinho Moysés Cavichioli Barbosa, aponta que há registro recorrente de espécies sob ameaça de extinção.

 

“Em termos de animais ameaçados, a gente tem muita garoupa, mero, badejo, budiões, raias e tartarugas. Dentro das espécies que a gente trabalha, deve ter pelo menos umas 15 espécies com algum tipo de nível de ameaça. Tem espécies que só ocorrem aqui no Brasil”, diz.


 

Gestão baseada em ciência

 

O Projeto Costão Rochoso mantém diálogo constante com órgãos de gestão ambiental, como o ICMBio, compartilhando informações que subsidiam decisões relativas à condução de atividades como turismo e pesca nessas áreas.

 

“Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos”, exemplifica o biólogo em relação ao budião.


 

Barbosa esclarece que espécies como o budião apresentam características fisiológicas em que todos os indivíduos nascem fêmea. Após determinado período, um deles realiza a reversão sexual e se torna macho, normalmente o maior do grupo. Segundo ele, a pesca desse animal maior compromete o ciclo reprodutivo do grupo no respectivo ano.

 

“Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira macho. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Então, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida”, conta.


 

Além de orientações sobre pesca, as evidências científicas fornecidas pelo projeto abrangem recomendações sobre distâncias seguras para a realização de turismo náutico e limites para o ruído dos motores de embarcações. Um dos estudos busca determinar até que distância é possível que mergulhadores se aproximem de tartarugas marinhas sem causar estresse aos animais.

 

Respostas às mudanças ambientais

 

O acompanhamento dos costões inclui ainda o monitoramento das formas de vida presentes nas áreas de entremarés, especialmente durante fenômenos climáticos extremos como ondas de calor. A bióloga marinha Isis Viana, responsável por essa etapa, relata que as variações bruscas de temperatura se tornaram mais frequentes e impactam diretamente a sobrevivência de organismos como algas e mexilhões.

 

“Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor”, diz.


 

“A gente chama esses momentos de extremos de calor. São anormais e acontecem com mais frequência por causa das mudanças climáticas, não tem organismos que sobrevivam”, ressalta ela, que conta com sensores nas rochas e boias oceanográficas, ambos captam a temperatura 24 horas por dia.


 

Outro objetivo do projeto é produzir dados que permitam determinar a proporção exata do litoral brasileiro composta por costões rochosos.

 

Regulamentação do uso e proteção às comunidades

 

Nas áreas de reserva extrativista, há regulamentação que estabelece o uso sustentável dos recursos naturais, garantindo a sobrevivência das populações tradicionais. Os moradores da região podem praticar a pesca, seja para consumo próprio ou comercialização local, enquanto a pesca industrial é proibida.

 

Segundo Weslley Almeida, agente de gestão socioambiental do ICMBio, muitas demandas para gerir essas áreas necessitam de fundamentação científica, o que é suprido pela parceria com o Projeto Costão Rochoso.

 

“Essa parceria com o Projeto Costão Rochoso vem para subsidiar essas questões”, diz.


 

Para Almeida, o ordenamento da reserva visa assegurar a existência dos recursos naturais para as gerações futuras dos pescadores artesanais.

 

O pescador José Antônio Freitas Batista, que atua há 49 anos na região, declara que a pesca é uma atividade fundamental para Arraial do Cabo e sustenta que a existência da reserva extrativista permite o equilíbrio entre o turismo e a pesca, evitando a sobre-exploração dos peixes.

 

“Se a gente não tivesse essa preservação, acho que nem o turismo a gente teria, porque o turismo veio como complemento de renda para a gente não atacar diretamente a pesca com todo o vapor e acabar com os peixes”, disse à Agência Brasil.


 

Ele ressalta ainda que a pesca movimenta a economia local, gerando empregos em atividades como fabricação de gelo, carpintaria náutica, manutenção de motores, produção de instrumentos de pesca e comércio de pescado.

 

“Uma cadeia depende da pesca”, resume.


 

Ações educativas e envolvimento comunitário

 

O projeto também investe em ações voltadas para a conscientização da comunidade local acerca da importância do manejo responsável dos costões rochosos. Periodicamente, pesquisadores promovem encontros em escolas e realizam capacitações para pescadores e seus familiares.

 

Yago Ferreira, cientista do mar envolvido no projeto, defende a necessidade de aproximar a sociedade do ambiente marinho para fomentar a compreensão e a preservação desses espaços.

 

“A gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe”, justifica Ferreira.


 

Barbosa, coordenador do projeto, considera que o envolvimento comunitário amplia a efetividade das ações de conservação ambiental.

 

“Isso é muito mais eficaz do que qualquer conhecimento acadêmico que sai apenas em artigo ou que vai apenas lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente”, justifica o coordenador.


 

A prefeitura de Arraial do Cabo informou que está promovendo estudos técnicos para determinar o número máximo de visitantes permitido em praias e outros pontos turísticos, com o objetivo de evitar a sobrecarga ambiental e aprimorar a experiência dos turistas. O município também destacou a parceria com o ICMBio para fiscalização e implementação das políticas públicas ligadas à reserva extrativista marinha.

 

Investimento socioambiental e parceria renovada

 

Em 2023, o Projeto Costão Rochoso firmou colaboração com a Petrobras, por meio do programa voluntário de responsabilidade socioambiental da empresa. Em 2026, essa parceria foi estendida por mais quatro anos, com previsão de avaliação ao final de cada ciclo para decidir pela continuidade da cooperação. O novo período contará com investimento previsto de seis milhões de reais.

 

A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, ressalta que as parcerias firmadas pela companhia devem integrar objetivos ambientais e sociais, conciliando interesses da comunidade, turismo de base local e atividades pesqueiras sob a perspectiva do uso sustentável dos recursos.

 

“Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica”, diz.


 

“Na verdade, para a população, elas podem andar juntas e uma contribuir com a outra”, completa Ana Marcela.


 

O projeto conta ainda com acompanhamento técnico, e tanto os repórteres quanto os fotógrafos presentes nas atividades estiveram no local a convite da Petrobras, que mantém a parceria com a iniciativa.

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