A Federação Mundial da Hemofilia (FMH) ressaltou, durante a celebração do Dia Mundial da Hemofilia, ocorrida nesta sexta-feira (17), que o diagnóstico é um passo fundamental para o tratamento e o cuidado de pacientes. A organização lançou uma campanha global para destacar a relevância da identificação precoce da doença.
Conforme estimativas da federação, mais de 75% dos indivíduos com hemofilia no mundo permanecem sem diagnóstico. Esta lacuna pode ser ainda maior quando se consideram outras condições hemorrágicas, indicando um grave problema de acesso a cuidados básicos.
Isso significa que centenas de milhares de pessoas em todo o mundo ainda não têm acesso a cuidados básicos.
O presidente da Federação Mundial da Hemofilia, Cesar Garrido, enfatizou que o diagnóstico exato representa a chave para o tratamento de indivíduos com distúrbios de coagulação. Ele observou que, em diversas regiões, obstáculos persistem, dificultando ou impedindo a detecção correta e contribuindo para taxas de diagnóstico alarmantemente baixas.
O diagnóstico preciso é a porta de entrada para o tratamento de pessoas com distúrbios hemorrágicos. No entanto, em muitas partes do mundo, barreiras continuam a atrasar ou impedir o diagnóstico correto, resultando em taxas de diagnóstico inaceitavelmente baixas.
Garrido fez um apelo global, convocando a união da comunidade internacional para fortalecer as capacidades diagnósticas em todas as localidades.
Neste dia 17 de abril, convoco a comunidade global a se unir na defesa de capacidades diagnósticas mais robustas em todos os lugares, porque sem diagnóstico não há tratamento e, sem tratamento, não há progresso.
Segundo a definição do Ministério da Saúde, a hemofilia é uma doença genética e rara caracterizada pela dificuldade de coagulação sanguínea. Essa condição surge da insuficiência dos fatores essenciais para a formação do que seria um “curativo natural” do organismo.
Em termos práticos, a hemofilia impede que o processo de coagulação do sangue ocorra de maneira eficiente. Isso resulta em hemorragias nas articulações, conhecidas como hemartroses, e nos músculos, formando hematomas, devido à carência dos genes que controlam a coagulação.
Como ilustração, quando há um ferimento e o sangramento inicia, as proteínas – componentes vitais para o crescimento e desenvolvimento de todos os tecidos corporais – atuam para interromper a hemorragia, um mecanismo conhecido como coagulação.
Indivíduos com hemofilia, entretanto, carecem dessas proteínas, o que os leva a sangrar em maior volume e por mais tempo do habitual.
O sangue possui diversos fatores de coagulação que operam em uma sequência específica. Ao término dessa cadeia de eventos, forma-se um coágulo, que é responsável por estancar o sangramento.
Contudo, em uma pessoa com hemofilia, um desses fatores de coagulação apresenta disfunção, impedindo a formação do coágulo e, consequentemente, mantendo o sangramento.
A hemofilia se manifesta em duas formas principais:
A Hemofilia A é caracterizada pela deficiência do Fator VIII.
A Hemofilia B, por sua vez, decorre da deficiência do Fator IX.
O Ministério da Saúde esclarece que, embora os padrões de sangramento sejam semelhantes em ambos os tipos, a intensidade da doença está diretamente ligada à concentração do fator de coagulação no plasma, que constitui 55% do volume total do sangue.
A doença é categorizada em três níveis de gravidade:
A forma grave, quando o fator de coagulação é inferior a 1%.
A forma moderada, com níveis de 1% a 5%.
A forma leve, que ocorre com mais de 5% do fator, podendo não ser detectada até a vida adulta.
Embora a hemofilia seja majoritariamente uma condição genética hereditária, transmitida entre gerações, há casos em que ela pode ser adquirida ao longo da vida.
A hemofilia congênita, presente desde o nascimento, resulta de uma alteração genética associada ao cromossomo X. Aproximadamente 70% dos casos são herdados de mães que são portadoras da mutação.
A incidência da hemofilia é mais comum em homens do que em mulheres, pois a doença é causada por um defeito genético no cromossomo X. Mulheres possuem dois cromossomos X, enquanto homens possuem apenas um, o que garante a manifestação do gene defeituoso em qualquer homem que o carregue.
Em casos muito raros, mulheres também podem desenvolver hemofilia, especialmente quando há união entre um homem e uma mulher com a condição. Frequentemente, mulheres portadoras do gene podem ter níveis reduzidos dos fatores VIII ou IX. Adicionalmente, todas as filhas de homens com hemofilia são obrigatoriamente portadoras.
Estatísticas do Ministério da Saúde de 2024 revelam que o Brasil contabilizou 14.202 pessoas diagnosticadas com hemofilia. A maioria desses casos corresponde à hemofilia A, com 11.863 registros, enquanto a hemofilia B somou 2.339 ocorrências.
No contexto nacional, a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), ligada ao Ministério da Saúde, desempenha um papel crucial. Ela é encarregada da produção de medicamentos hemoderivados, que são posteriormente distribuídos por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em um comunicado divulgado em comemoração ao Dia Mundial da Hemofilia, a Hemobrás enfatizou a relevância da fabricação nacional de hemoderivados. A empresa também salientou os esforços desenvolvidos em sua fábrica localizada no município de Goiana, na Zona da Mata pernambucana.
A Hemobrás avalia que seu complexo industrial posiciona o Brasil entre um grupo restrito de nações que estão alcançando a autonomia na produção de fármacos.
Essa estrutura de suporte baseia-se na distribuição constante de medicamentos como o Fator VIII de coagulação, usado no tratamento da hemofilia A, em suas versões plasmática e recombinante (produzido por biotecnologia).
Ao garantir que o SUS disponha de medicamentos essenciais para o tratamento profilático da hemofilia, a empresa funciona como um escudo logístico e tecnológico, estabilizando a saúde do paciente e permitindo que ele mantenha uma rotina ativa.