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Brasil articula trajeto aéreo direto até Senegal para impulsionar comércio

Iniciativa visa beneficiar economia e turismo, além de estimular acordos bilaterais e regionais

22/04/2026 às 13:36
Por: Redação

O governo brasileiro está empenhado em estabelecer uma rota aérea mais curta entre o Brasil e a capital do Senegal, Dacar, localizada na costa oeste africana. O objetivo é promover o desenvolvimento do turismo e do comércio bilateral, além de beneficiar também nações vizinhas das duas regiões.

 

No momento, não existem voos diretos ligando os dois países, o que obriga passageiros brasileiros e senegaleses, em certos casos, a viajar primeiro até Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de chegar ao destino final em Dacar. Esse desvio amplia de forma significativa o tempo total de deslocamento.

 

Além da possibilidade via Dubai, outras alternativas para essa travessia envolvem conexões em grandes aeroportos europeus ou em cidades africanas mais distantes da América do Sul, configurando também trajetos mais longos.

 

Um voo em linha reta entre Natal, no Rio Grande do Norte, e o Senegal teria cerca de 2,9 mil quilômetros de extensão. No entanto, o trajeto entre Natal e Lisboa é quase o dobro dessa distância, enquanto a viagem até Dubai é quase quatro vezes maior.

 

A embaixadora brasileira no Senegal, Daniella Xavier, explicou que o país está buscando alternativas para encurtar o tempo de voo entre as duas nações.

 

“Temos que continuar a trabalhar nesse sentido, pois não é lógico que tenhamos que ir à Europa para vencer menos de 3 mil km! Imaginem a redução dos tempos de voo e nos custos também em benefício dos demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, disse.


 

Daniella Xavier participou do Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, realizado na cidade, que possui cerca de 4 milhões de habitantes, na segunda e na terça-feira.

 

Conexão aérea como impulsionador econômico

 

Para a embaixadora, romper o que define como um ciclo vicioso é fundamental: a falta de volume de comércio e turismo impede a existência de conexões aéreas diretas, e a ausência dessas conexões, por sua vez, dificulta o crescimento dessas atividades.

 

Recentemente, Daniella Xavier esteve reunida com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes de Senegal, Yankhoba Diémé, além da diretoria da estatal Air Senegal. Ela defende a necessidade de promover acordos entre empresas aéreas brasileiras – todas privadas – e a Air Senegal, além de companhias de outros países africanos, como Marrocos, Etiópia e Turquia. A sugestão é desenvolver acordos de codeshare, mecanismo pelo qual as companhias vendem passagens para voos umas das outras.

 

Vínculos históricos e diplomacia

 

A diplomata sublinha que os laços históricos entre Brasil e Senegal são marcantes, resultantes principalmente do tráfico de escravizados. O Senegal abriga a Ilha de Gorée, local de grande relevância histórica como ponto de tráfico de africanos para as Américas.

 

A embaixada brasileira foi inaugurada em Dacar em 1961, e, dois anos depois, foi estabelecida a representação senegalesa em Brasília, que atualmente é a única do Senegal em toda a América do Sul.

 

Fluxo comercial e oportunidades

 

Em 2025, o intercâmbio comercial entre Brasil e Senegal totalizou 386,1 milhões de dólares, com superávit de 370,8 milhões de dólares favorável ao Brasil, segundo números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Isso indica que o Brasil exporta muito mais do que importa do parceiro africano.

 

“O Senegal ainda exporta pouco para o Brasil. Poderia, por exemplo, investir na exportação de amendoim e derivados das flores do nenúfar [lírios-d’água], como produtos gourmet, assim como tecidos, produtos artesanais, entre outros”, avalia a embaixadora.


 

Daniella Xavier informou ainda que o volume comercial entre os dois países tende a crescer, e que busca ampliar investimentos. Em 2024, uma missão empresarial levou 50 empresários brasileiros ao Senegal.

 

Investimentos em genética avícola e transferência tecnológica

 

No ano passado, foi anunciado um investimento para a criação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal. O empreendimento, liderado pela empresa brasileira West Aves em parceria com grupos africanos, prevê a produção de 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras, com aporte inicial de 20 milhões de dólares.

 

A expectativa é que sejam gerados 300 empregos diretos e mil indiretos, além de proporcionar transferência de tecnologia para o Senegal.

 

“Caso bem sucedido, o projeto poderá permitir a autossuficiência total do país na produção de aves e a redução de 20% de seus custos para o consumidor final”, sustenta.


 

Outros acordos envolvem a transferência de tecnologias brasileiras voltadas à agropecuária, ao programa de merenda escolar e ao setor de defesa para território senegalês.

 

Cooperação internacional e posições multilaterais

 

Segundo Daniella Xavier, as relações políticas entre Brasil e Senegal ganharam mais dinamismo diante do atual cenário internacional. Ela destaca a necessidade de ampliar o alinhamento político entre países que compartilham posturas semelhantes em fóruns multilaterais e de buscar alternativas comerciais conjuntas.

 

Entre os exemplos dessa cooperação está a defesa conjunta de reformas em organismos internacionais, incluindo o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), demanda antiga de ambas as nações. Atualmente, apenas Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França detêm assentos permanentes e poder de veto no conselho, sem representantes da América do Sul ou África. O órgão é responsável, entre outras funções, por impor sanções internacionais e autorizar intervenções militares.

 

Senegal destaca papel de mediação pela paz

 

No mesmo Fórum Internacional de Dacar, a embaixadora do Senegal no Brasil, Marie Gnama Bassene, ressaltou que o Senegal ocupa posição estratégica na construção de confiança, no fortalecimento da cooperação e na prevenção de conflitos por meio do diálogo. O país busca promover e defender a paz tanto em sua região quanto em todo o continente africano.

 

Marie Gnama Bassene mencionou ainda que o Senegal mantém uma longa tradição de participação eficaz em missões de paz da ONU e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), composta por 12 países. Ela comparou essa prática à tradição diplomática brasileira.

 

“Ao observar a situação do Brasil e suas relações com seus vizinhos na América do Sul, não posso deixar de perceber muitas semelhanças com o Senegal”, disse à Agência Brasil.


 

Ela afirmou que Brasil e Senegal compartilham compromisso com o multilateralismo, diplomacia, defesa da paz e segurança, além da prevenção e resolução pacífica de conflitos por meio do diálogo e da consulta.

 

O Senegal irá comandar entre 2026 e 2030 a Comissão da Cedeao, órgão executivo da comunidade. O país também integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), composta por mais de 20 países, a maioria africana, com foco em manter o sul do Atlântico livre de tensões e conflitos geopolíticos. Recentemente, o Brasil assumiu a liderança desse grupo durante encontro realizado no Rio de Janeiro.

 

A diplomata senegalesa define a parceria entre Brasil e Senegal como forte, estável e duradoura, ressaltando quase 65 anos de relações diplomáticas e convergência de visões sobre as principais questões internacionais.

 

Brasil participa de debates sobre segurança africana

 

O fórum em Dacar, apesar de centrado na África, reuniu chefes de Estado, ministros e diplomatas de 38 países, sendo 18 deles africanos, com o intuito de discutir segurança e paz no continente.

 

No encerramento do evento, o ministro da Integração Africana, dos Negócios Estrangeiros e dos Senegaleses no Exterior, Cheikh Niang, foi questionado sobre a possível contribuição do Brasil, país com profunda herança africana, para a segurança e estabilidade na África.

 

“Acho que o simples fato de participar de uma discussão, apresentar ideias e fazer propostas já é útil”, respondeu.


 

O ministro complementou que, desse ponto de vista, a participação brasileira não só é desejada, mas também de grande utilidade para a qualidade do trabalho realizado na temática.

 

O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.

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