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Estudo aponta risco 17 vezes maior de Guillain-Barré após dengue

Pesquisa mostra aumento expressivo do risco de Guillain-Barré nas semanas seguintes à infecção por dengue e reforça importância da prevenção

17/04/2026 às 00:23
Por: Redação

Pessoas que contraem o vírus da dengue apresentam risco significativamente elevado de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas semanas subsequentes à infecção. Dados recentes revelam que, nas seis semanas após o início dos sintomas, a probabilidade é cerca de 17 vezes superior quando comparada à população geral. Esse índice alcança 30 vezes mais nos primeiros 14 dias após o surgimento dos sintomas.

 

Essas conclusões foram alcançadas por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) em parceria com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. O trabalho foi publicado em periódico científico internacional e indica que, para cada 1 milhão de pessoas diagnosticadas com dengue, 36 podem desenvolver a SGB. Embora o número pareça baixo em termos percentuais, ele adquire relevância diante das frequentes epidemias do país.

 

O levantamento analisou três bases de dados do Sistema Único de Saúde (SUS), considerando informações de internações hospitalares, registros de casos de dengue e notificações de óbitos no período de 2023 a 2024. Nesse intervalo, foram contabilizadas mais de 5 mil hospitalizações por SGB, das quais 89 ocorreram logo após manifestações clínicas da dengue. A SGB é uma condição neurológica rara, com potencial gravidade.

 

A pesquisa ressalta a necessidade urgente de que a síndrome seja reconhecida como complicação neurológica pós-dengue nos protocolos de vigilância sanitária. Os autores recomendam que gestores públicos estejam atentos ao surgimento de sintomas como fraqueza muscular, especialmente em períodos de surto da doença, e que providenciem leitos de UTI e suporte ventilatório adequados.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

Segundo a análise dos especialistas, é fundamental que profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros e neurologistas, considerem a hipótese de SGB ao atender pacientes que apresentaram dengue nas últimas seis semanas e desenvolveram sintomas como fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento. O diagnóstico precoce é apontado como crucial, pois o sucesso do tratamento, que utiliza imunoglobulina ou plasmaférese, depende do início rápido da intervenção.

 

Os pesquisadores destacam a importância de notificar todos os casos de SGB surgidos após dengue aos órgãos de vigilância epidemiológica, tanto em âmbitos municipais quanto estaduais, especialmente quando há indícios de doença neurológica causada por arbovírus.

 

Atualmente, não existe terapia antiviral específica para o vírus da dengue. O tratamento é pautado no manejo clínico e na hidratação do paciente. Diante desse cenário, o combate ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação são considerados pelos autores como as estratégias mais eficazes para prevenir tanto a doença quanto suas complicações neurológicas severas, como a SGB.

 

A imunização contra a dengue pode trazer redução significativa nos casos, o que, consequentemente, deve impactar também a quantidade de pessoas acometidas por condições graves decorrentes da infecção viral.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Quadro clínico e contexto epidemiológico

 

De acordo com o levantamento da Fiocruz, o Brasil tem convivido com epidemias recorrentes de dengue. No ano de 2024, foram registrados mais de 6 milhões de casos prováveis no país. Ainda que a SGB seja considerada rara, esses números expressivos evidenciam um contingente absoluto de pacientes que pode apresentar a complicação, exigindo preparação e resposta adequada dos serviços de saúde.

 

O estudo também contextualiza a relação entre arboviroses e manifestações neurológicas. Em 2015 e 2016, durante a epidemia de Zika, foi observado aumento expressivo de casos de SGB em adultos, além da associação do vírus à microcefalia em recém-nascidos. Tanto o vírus da dengue quanto o do Zika pertencem à mesma família e são transmitidos por mosquitos.

 

A SGB é caracterizada como uma doença neurológica rara, em que o próprio sistema imunológico ataca os nervos periféricos, responsáveis pela ligação do cérebro e da medula espinhal ao restante do corpo. O quadro clínico inicial envolve fraqueza muscular, começando geralmente nos membros inferiores, podendo progredir para os braços, rosto e, em situações graves, alcançar os músculos respiratórios, o que pode demandar ventilação assistida.

 

Embora a maioria das pessoas apresente recuperação total, esse processo pode se estender por meses ou anos, e há pacientes que permanecem com sequelas irreversíveis.

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